sábado, 20 de agosto de 2022

VIAGEM PARA DENTRO DE MIM (poesia)

 


O leito é um jardim de preguiça,
Alfombra onde amar não é proibido.
É relva onde o desejo brota e viça,
E o amor não deve ser contido.

Ele abre meus braços em cruz,
Prende minhas mãos em vertigem,
E sobre mim crucifica-se em luz
Impregnando-me de amor virgem.

Viaja dentro de mim, no meu sangue,
No céu estrelas acendem e se apagam,
E neste momento em que estou exangue
Vejo anjos que ao meu redor vagam.

Deu-me um prazer longo e profundo.
Nossas bocas uniram-se com carinho,
Adormecendo nossas línguas no fundo
De nossas gargantas como em um ninho.

E nossas peles, chorando em lamentos,
Umedeceram os lençóis decorados,
Na ânsia e loucura desses momentos
Somos livres, seres purificados.

26/09/07.
Maria Hilda de J. Alão.

PENSA QUE ESTÁ FAZENDO O QUÊ? (texto para refletir)

 


As pernas não obedeciam mais. A senhora, de mais ou menos oitenta anos, estava parada esperando o sinal verde para atravessar para o outro lado da rua. Ao seu lado várias pessoas também aguardavam. Ela olhava para cada rosto e via a indiferença estampada. Todo mundo tem pressa, e quem vai parar para ajudar uma velhinha a passar para o outro lado da rua?

O sinal ficou verde. Todos correram para a outra calçada. A senhora também foi, mas o passo... Ah! o passo era lento embora ela se esforçasse para torná-lo mais rápido. Nisso ela sentiu alguém segurar a sua mão. Era um menino de uns dez anos.

- Senhora, posso ajudar? - perguntou o garoto.

- Obrigada, meu filho. Ainda bem que existe amor e solidariedade nas crianças. Vamos! Preciso chegar ao consultório médico à s nove horas.

A senhora e o menino, de mãos dadas, estavam bem no meio da rua quando o sinal ficou amarelo. Motores roncando, gritos, xingamentos dirigidos aos dois. Foi então que menino parou. Abriu os braços e mandou a senhora prosseguir. Os motoristas, possessos, gritavam:

- Sai da frente maluco. Você não tem mãe? Seu pivete. Vai pra escola seu moleque!

O menino ficou ali até a senhora chegar do outro lado. Quando ele abaixou os braços, o motorista que estava ao lado dele, perguntou irado:

- Seu moleque, pensa que está fazendo o quê?

- Estou fazendo um ato de amor, coisa que o senhor não aprendeu com a idade que tem. - respondeu o garoto indo embora calmamente.

08/03/07.

Maria Hilda de J. Alão.

A PEDRA (texto para refletir)


Um dia, caminhando por uma estrada de terra, um homem tropeçou numa pedra. A topada foi tão grande que ele esfolou o dedão do pé. Doeu. Doeu tanto que o homem até chorou. Um pouco aliviado da dor e sentado no chão ele perguntou:

- Oh, pedra! Por que ficas no meio da estrada por onde passam as pessoas?
- Porque as pedras ficam no lugar onde nascem. - respondeu delicadamente a pedra.
- Veja! por sua causa eu feri o dedão do pé e, por esse motivo, chegarei atrasado ao meu destino. - insistiu o homem.
- Cabe a você retirar os obstáculos do caminho e não aos obstáculos se afastarem para que você passe. - disse-lhe a pedra.
Não adianta sentar, questionar e esbravejar. Os empecilhos da vida são como as pedras. Eles ficam onde nascem. A sabedoria está em parar, estudar a situação arquitetando um plano para removê-los, lançando-os a margem da vida onde ficarão esquecidos. É uma árdua batalha encetada por corajoso soldado que não se detém maldizendo o inimigo porque sabe que a vitória será gloriosa.
Se o homem dessa história tivesse se valido de tal preceito, estaria com o dedão do pé intacto seguindo o seu destino.

09/07/07.
(Maria Hilda de J. Alão)

A FLOR DO JARDIM (poesia)

 


No jardim de uma abadia vivia
Uma bela flor que jamais sorria.
Era tanta e tanta melancolia
Que nem o canto ou a gritaria
Das crianças em suas correrias
Faziam a flor mover uma pétala.

As outras flores ao redor dela
Desde a mais simples a mais bela,
Todas com muita e muita cautela,
Falavam do céu e da doce aquarela
Que Deus pintara ao redor delas.
Mas a flor continuava taciturna

Guardando seu segredo em urna
Escondida em profunda furna
Da terra desconhecida, soturna,
Que é seu coração de flor diurna.
Mas a amiga névoa fria, noturna,
Borrifou a flor triste e desbotada:

“Amiga, desperta! Veja, já é madrugada.”
A flor acordou. Mirou o céu desencantada
E viu o garboso sol em sua caminhada
Para mais um desabrochar de bela alvorada.
Foi nesse instante que a flor emocionada
Revelou o motivo de tanta dor e tristeza:

Era a procura por Cristo, por sua luz e beleza,
Pelo caminho, a verdade e a vida em sua grandeza.
“Segue-me!” Disse o sol em sua afoiteza.
E as pétalas da flor ganharam cor e delicadeza.
Liberta da amargura e da incerteza,
Ela passou a seguir o sol com sutileza.

17/03/13
(Maria Hilda de J. Alão)

sexta-feira, 22 de julho de 2022

VERSOS QUE FIZ (poesia)

 



Há versos que fiz de dores,
Outros me inspirou a alegria.
Teço sofisticadas imagens
De luas no céu e no chão,

Refletidas nas poças d’água
Da fria chuva da madrugada.
Escrevi versos de desejo
Fixando o olhar num retrato

E o pensamento no infinito,
Nas horas em que o silêncio maciço
Ondula diante dos meus olhos
Lembrando ancas luxuriosas.

Ousei, fui mais atrevida,
Versejei a partir dum sonho,
Um corpo em repouso no leito
E uma boca a beijar-me o seio.

Cristalizei letras e vocábulos
Do quebra-cabeça da linguagem
Com eles construí poemas de fogo,
De presenças, de ausências

E de visão metafórica
Do sono eterno da morte.
Mostrou-me, a musa, sombras,
Voos de feixes de luz,

Aguçou meu exotismo,
Desnudou meu erotismo
Plasmando-o em cada palavra
Dos versos que já fiz.

(Maria Hilda de J. Alão)


A FLOR DO JARDIM (poesia)


No jardim de uma abadia vivia
Uma bela flor que jamais sorria.
Era tanta e tanta melancolia
Que nem o canto ou a gritaria
Das crianças em suas correrias
Faziam a flor mover uma pétala.

As outras flores ao redor dela
Desde a mais simples a mais bela,
Todas com muita e muita cautela,
Falavam do céu e da doce aquarela
Que Deus pintara ao redor delas.
Mas a flor continuava taciturna

Guardando seu segredo em urna
Escondida em profunda furna
Da terra desconhecida, soturna,
Que é seu coração de flor diurna.
Mas a amiga névoa fria, noturna,
Borrifou a flor triste e desbotada:

“Amiga, desperta! Veja, já é madrugada.”
A flor acordou. Mirou o céu desencantada
E viu o garboso sol em sua caminhada
Para mais um desabrochar de bela alvorada.
Foi nesse instante que a flor emocionada
Revelou o motivo de tanta dor e tristeza:

Era a procura por Cristo, por sua luz e beleza,
Pelo caminho, a verdade e a vida em sua grandeza.
“Segue-me!” Disse o sol em sua afoiteza.
E as pétalas da flor ganharam cor e delicadeza.
Liberta da amargura e da incerteza,
Ela passou a seguir o sol com sutileza.

17/03/13 
Maria Hilda de Jesus Alão

O DEFEITO DA LUA (poesia)

 

Mulher bela, nua, na noite preguiçosa,
Atrevida despertando tantos devaneios
No rastro de sua claridade vaporosa
Entre os contornos de pernas e de seios.

Esparge luz nos dorsos das avalanchas
Descendo a montanha em estertores.
Doces olhos mirando suas manchas
Que mais parecem estranhas flores.

Dona de raios claros como cristal,
Fogosa amante que a tantos excita
Com santificada candura animal,
Ilumina o leito de alguém que grita,

Preso a um abraço amplo, colossal,
Unindo sua boca a que o incita
Num beijo que é o bem e o mal
Deixando rubra marca como escrita,

Porque só a Lua sabe dar esse prazer
Que faz vibrar o coração no peito,
Também sabe fazer a lágrima correr,
Pois despertar lembranças é seu defeito.

21/07/04.
(Maria Hilda de J. Alão)

VIAGEM PARA DENTRO DE MIM (poesia)

  O leito é um jardim de preguiça, Alfombra onde amar não é proibido. É relva onde o desejo brota e viça, E o amor não deve ser contido....